Pular para o conteúdo
Início » Qual a história por trás dos poemas de futebol e seus autores famosos

Qual a história por trás dos poemas de futebol e seus autores famosos

A magia do futebol nas palavras: a história dos poemas e seus autores

O futebol, paixão nacional e esporte mais popular do planeta, transcende as quatro linhas do campo. Ele inspira arte, música e, inegavelmente, a poesia. Mas qual a história por trás dos poemas de futebol e quem são os autores que ousaram traduzir a genialidade de um drible ou a euforia de um gol em versos? Este artigo mergulha nas profundezas dessa relação intrínseca, explorando como a linguagem corporal do esporte se transforma em palavras e celebrando os mestres que imortalizaram momentos épicos e craques inesquecíveis.

Desde os primórdios do futebol como fenômeno cultural, poetas e escritores encontraram no esporte uma fonte inesgotável de inspiração. Eles capturaram a essência do jogo, a habilidade dos jogadores e a emoção das torcidas, criando obras que ressoam com aficionados e amantes da literatura. Acompanhe conosco essa jornada pelas rimas e ritmos do futebol, descobrindo os autores que transformaram a grama em palco para a poesia.

O futebol como linguagem: a visão de Pasolini

A ideia de que o futebol possui uma linguagem própria não é nova. O renomado cineasta e escritor italiano Pier Paolo Pasolini, em um artigo de 1971, tentou esboçar uma “semiologia do futebol”. Ele diferenciou o “futebol de prosa”, característico do jogo europeu, do “futebol de poesia”, mais presente na América Latina, especialmente no Brasil.

Para Pasolini, o drible e o gol eram as expressões máximas dessa poesia em campo. O futebol brasileiro, com sua ênfase na individualidade, na ginga e na criatividade, se encaixava perfeitamente nessa definição. Ele via no jogador brasileiro um artista, capaz de transformar a partida em um espetáculo de improviso e beleza.

Essa concepção de Pasolini foi especialmente influenciada pela final da Copa do Mundo de 1970, no México, onde o Brasil sagrou-se tricampeão. A vitória consagrou o país como a “terra do futebol”, e o estilo de jogo brasileiro encantou o mundo.

A poesia do futebol na literatura brasileira: os primeiros versos

No Brasil, a relação entre futebol e poesia começou a florescer ainda na década de 1910, com o futebol ainda em sua fase amadora. Um exemplo é o poema “Match de football” (1916), de Apparicio Torelly, que retrata o jogo com um toque de humor:

O dia estava lindo. Havia gente em penca. / O juiz apitou e começou a encrenca.

Em 1922, Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça utilizou a forma de soneto para enaltecer o desempenho de Marcos de Mendonça, o primeiro goleiro da seleção brasileira e seu futuro marido, no poema “O salto”. A autora o compara a um herói grego, demonstrando a admiração e o esporte como palco de feitos heroicos.

Grandes nomes da literatura que dedicaram versos ao futebol

A partir dos anos 1940, com a popularização massiva do futebol, muitos escritores brasileiros passaram a voltar seus olhares para o esporte. Nomes de peso da nossa literatura dedicaram versos ao tema, entre eles:

  • Carlos Drummond de Andrade, com poemas como “Futebol”, “A Seleção” e “Aos atletas”.
  • Ferreira Gullar, autor do poema “Gol”.
  • Glauco Mattoso, com “Soneto para o jogo bruto”.
  • José Soares, que escreveu “O futebol no inferno”.
  • Vinicius de Moraes, com seu célebre “O anjo de pernas tortas”.
  • João Cabral de Melo Neto, com poemas como “O torcedor do America F. C.” e “Ademir da Guia”.

Essa lista demonstra a relevância do futebol como inspiração literária, atravessando diferentes estilos e épocas.

Vinicius de Moraes e o “anjo das pernas tortas”: Garrincha em versos

Um dos poemas mais emblemáticos sobre futebol na literatura brasileira é, sem dúvida, “O anjo de pernas tortas”, de Vinicius de Moraes, publicado em 1962. O poema é uma ode a Manuel Francisco dos Santos, o lendário Garrincha, um dos maiores ídolos da história do futebol mundial.

O poema celebra a genialidade de Garrincha em campo, sua habilidade ímpar de driblar e encantar. Vinicius de Moraes, conhecido por sua paixão pelo Rio de Janeiro e pela Bossa Nova, traduziu a magia do jogador em versos que capturam a essência de seu jogo:

A um passe de Didi, Garrincha avança
Colado o couro aos pés, o olhar atento
Dribla um, dribla dois, depois descansa
Como a medir o lance do momento.

Vem-lhe o pressentimento; ele se lança
Mais rápido que o próprio pensamento,
Dribla mais um, mais dois; a bola tranca
Feliz, entre seus pés – um pé de vento!

Num só transporte, a multidão contrita
Em ato de morte se levanta e grita
Seu uníssono canto de esperança.

Garrincha, o anjo, escuta e atende: Goooool!
E pura imagem: um G que chuta um O
Dentro da meta, um L. E pura dança. (MORAES, 2010, p. 136)

Este soneto, com sua estrutura clássica, captura a beleza do drible, a expectativa da torcida e a explosão do gol. O poema foi inspirado na atuação de Garrincha na conquista do bicampeonato mundial em 1962, quando ele brilhou intensamente, especialmente após a lesão de Pelé.

A admiração por Garrincha era tamanha que o jogador era frequentemente descrito como vindo “de outro planeta”. Nelson Rodrigues, outro gigante da literatura brasileira e cronista fervoroso do futebol, ressaltou as habilidades “fora de série” do craque. Nilton Santos, companheiro de Garrincha no Botafogo e na Seleção, também exaltou sua singularidade, afirmando que “Garrincha é um só. Não existe, não existiu, nem existirão dois”.

É interessante notar que, na mesma época em que Vinicius de Moraes compunha seus versos, a Bossa Nova, movimento musical do qual o poeta era um dos expoentes, florescia. A literatura e a música da época estavam interligadas, assim como Pelé, Garrincha e Didi eram craques nos gramados, Tom Jobim, João Gilberto e Vinicius de Moraes o eram nos palcos da vida, como aponta Beto Xavier.

Carlos Drummond de Andrade e sua visão sobre o futebol

Carlos Drummond de Andrade, um dos maiores poetas da literatura brasileira, também dedicou atenção ao futebol, embora não se considerasse um cronista esportivo no sentido estrito. Seus textos sobre o esporte, como “Futebol”, surgiram em sua vasta produção jornalística ao longo de décadas.

Drummond via o futebol como parte intrínseca da vida brasileira, entrelaçado com as situações sociais e o cotidiano do país. Ele explorava a relação do torcedor com o esporte, os detalhes e as complexidades desse vínculo.

Em crônicas como “Falou e disse”, publicada no Jornal do Brasil em 17 de agosto de 1971, Drummond comentava sobre frases célebres de jogadores, como as de Dario, atacante do Atlético Mineiro. Ele observava como o futebol, mesmo com sua simplicidade aparente, era palco para paixões intensas e dramas humanos.

A obra de Drummond sobre futebol, reunida em coletâneas como “Quando é dia de futebol”, revela um poeta atento aos fenômenos sociais e culturais de seu tempo, enxergando no esporte um espelho da sociedade brasileira.

Outros poetas e a temática do futebol

A influência do futebol na poesia brasileira se estende a muitos outros autores. A lista de escritores que se renderam à magia do esporte é extensa e diversificada. Ferreira Gullar, por exemplo, capturou a emoção do gol em seu poema homônimo, transformando o momento máximo do jogo em pura lirismo.

João Cabral de Melo Neto, conhecido por sua poesia mais objetiva e concisa, também explorou o universo do futebol em versos como “O torcedor do America F. C.” e “Ademir da Guia”. Seus poemas trazem uma perspectiva única sobre os personagens e as dinâmicas do esporte.

Glauco Mattoso, com seu “Soneto para o jogo bruto”, e José Soares, com “O futebol no inferno”, demonstram a variedade de abordagens e estilos que o futebol pode inspirar na poesia, indo do lirismo à crítica, do humor à reflexão mais profunda.

A universalidade da poesia esportiva

A poesia de futebol, seja brasileira ou de outras nacionalidades, compartilha uma característica fundamental: a capacidade de capturar a essência do esporte e transformá-la em arte. Autores como o uruguaio Eduardo Galeano, em “El fútbol a sol y sombra”, celebram a paixão, a beleza e, por vezes, a tragédia do futebol.

Esses poetas e escritores, com suas palavras, eternizam momentos que, de outra forma, seriam efêmeros. Eles nos convidam a olhar o futebol com outros olhos, a apreciar a arte que se manifesta em cada drible, em cada passe, em cada gol.

A história dos poemas de futebol e seus autores é um testemunho da profunda conexão entre o esporte e a cultura. Ela nos mostra que a paixão pelo futebol pode, sim, ser expressa em sua forma mais elevada: a poesia, deixando um legado imortal para as futuras gerações de amantes do jogo e das palavras.