Eduardo Esídio, o brasileiro que desafiou o preconceito e fez história no futebol peruano
O Brasil estará em Lima para a final da Libertadores, mas há 20 anos, outro brasileiro já era protagonista na capital peruana, marcando seu nome para sempre no futebol do país. Esta é a história de José Eduardo Esídio, o Edu, que enfrentou o preconceito por ser portador do vírus HIV e se tornou um dos maiores ídolos do Universitário, do Peru.
Edu Esídio, nascido em Santa Rita de Passa Quatro, interior de São Paulo, não teve grande destaque no futebol brasileiro antes de sua jornada internacional. Após passagens por clubes menores, chegou a Lima em 1997 para defender o modesto Alcides Vigo, onde marcou seis gols na campanha do rebaixamento, mas chamou a atenção do Universitário.
Foi no Universitario que sua trajetória de sucesso começou, coincidindo com um momento pessoal desafiador. Ao realizar exames de rotina em 1998, o atacante testou positivo para o vírus HIV. A notícia, envolta em tabus e desinformação na época, quase encerrou sua promissora carreira. O clube, influenciado pelo pouco conhecimento sobre a condição, o dispensou antes mesmo de sua estreia.
O baque foi imenso, e Esídio retornou ao Brasil em desespero, com a informação vazada pelos dirigentes do clube, que equivocadamente associaram o diagnóstico de HIV à Aids. Uma avaliação mais rigorosa revelou que ele era portador assintomático do vírus, sem que isso o impedisse de jogar. No entanto, o contrato já havia sido rescindido.
Graças a uma lei peruana de 1996, que impedia a demissão de pessoas diagnosticadas com HIV, Esídio precisou recorrer à justiça para reestabelecer seu vínculo com o clube. Após meses de batalha legal, foi readmitido e respondeu ao preconceito com atuações memoráveis em campo.
Um Ídolo Superando Barreiras
A readmissão não significou o fim da discriminação. Adversários relutavam em jogar contra Edu, temendo o contágio, e a Federação Peruana exigiu laudos médicos para sua inscrição. A mídia, por vezes, o comparava a Magic Johnson, o astro do basquete que revelou ser portador do vírus em 1991.
Juan Carlos Ortecho, editor de esportes do RPP Noticias em Lima, explicou o clima da época: “Dentro da diretoria, houve medo, desconhecimento, e o pior de tudo foi que se divulgou algo que é uma informação privada, uma informação de saúde, uma informação sensível. Divulgaram o resultado positivo dele. Houve muita preocupação, muita ignorância. Estamos falando dos anos 90, quando se acreditava, dentro dessa ignorância, que um HIV positivo era uma sentença de morte”.
Ortecho acrescenta que, apesar da comoção e preocupação inicial, a recepção do público mudou rapidamente. “Na estreia, ele fez um gol contra o Municipal, em uma partida difícil no Estádio Nacional, e o público começou a gostar dele. Havia aquela preocupação de como um jogador que era positivo poderia entrar em campo, sendo que já estava totalmente comprovado que o risco de contágio era nulo. Com o tempo, acredito que isso não ficou como algo que tenha marcado a carreira dele.”
Registros do preconceito incluem um incidente na Libertadores de 1999, contra a Universidad Católica (Chile), onde, após um choque que causou sangramento em ambos os jogadores, atletas adversários exigiram a retirada de Esídio de campo. Antes de um jogo contra o Vélez Sarsfield (Argentina), um oponente declarou ser “muito difícil enfrentar um portador de HIV no futebol profissional”.
Respostas em Campo e Legado Duradouro
A condição de saúde de Eduardo Esídio não se manifestou e, crucialmente, não o limitou em campo. Seu desempenho excepcional fez com que diretoria, torcida e mídia deixassem o diagnóstico em segundo plano. Com o contrato revalidado em abril de 1998, Esídio terminou a temporada como artilheiro do Universitário, com 25 gols, e campeão peruano.
No ano seguinte, conquistou o bicampeonato nacional. O ápice veio em 2000, quando marcou 37 gols, tornando-se o segundo maior artilheiro do mundo em ligas nacionais de primeira divisão, atrás apenas de Jardel. Esse feito histórico levou o Universitário ao tricampeonato peruano.
“Ele quebrou o recorde de gols em uma única temporada no Peru. Só depois de 20 anos, em 2018, isso foi superado por um argentino, Emanuel Herrera, com 42 gols pelo Sporting Cristal. Edu era um jogador com boa estatura para o futebol peruano, alto, e muito simples em suas comemorações”, relata o jornalista Juan Carlos Ortecho.
Ortecho complementa, “Ele conquistou prestígio, definitivamente. Muitos o consideram entre os melhores camisas 9 da história do Universitário. Quando se montam equipes ideais do clube, creio que ele estará. No meu time ideal do Universitário, o Edu está, sem dúvidas.”
Homenagens e o Primeiro Gol no Estádio Monumental
Eduardo Esídio, hoje com 55 anos, prefere não comentar publicamente sua condição, mas em entrevistas passadas, destacou a importância da fé e da família. “A vida não tem segredo. Família é tudo. Sou muito feliz. Não posso dizer que tiro de letra, mas eu aprendi a ser mais sensível. Na dificuldade que você vê muita coisa. Em campo, nunca me limitou em nada. Enquanto eu estive jogando não foi necessário tomar medicamentos. O povo peruano foi muito solidário comigo, viram a minha entrega no gramado. Minha passagem por lá me marcou muito”, declarou.
O Estádio Monumental de Lima, palco da final da Libertadores entre Palmeiras e Flamengo, também tem um lugar especial na história de Eduardo Esídio. Em julho de 2000, no jogo de inauguração do estádio, Edu marcou o primeiro gol da vitória do Universitário sobre o Sporting Cristal por 2 a 0.
Em 2001, Esídio transferiu-se para o Alianza Lima, o maior rival do Universitário, onde conquistou mais um título nacional. Retornou ao Brasil, atuou por outros clubes e encerrou a carreira em 2006. Nos últimos anos, foi homenageado pelo Universitário em Lima, em 2023 e 2024, celebrando sua inestimável contribuição para a história do clube e superação pessoal.