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Algoz do Flamengo, Garrinsha do Bangu se divide entre o sucesso no Carioca e o medo de sua família haitiana ser deportada dos Estados Unidos por políticas de Trump

O Campeonato Carioca começou com uma surpresa e um nome que ecoou nos noticiários: Garrinsha, atacante haitiano do Bangu, que marcou um golaço e deu assistência na vitória de seu time sobre o Flamengo.

Apesar do momento de glória nos gramados brasileiros, a vida pessoal do jogador de 24 anos é marcada por uma profunda preocupação. Seus pais, Joseph Garry e Gina Jean, e sua irmã mais nova, Gabriela, vivem nos Estados Unidos e enfrentam um cenário de incerteza.

Eles aguardam a emissão de vistos para o Brasil, temendo serem forçados a retornar ao Haiti, um país assolado por uma grave crise de segurança e violência, conforme informação divulgada pelo ge.

O Brilho nos Gramados e a Angústia Familiar

Garrinsha, batizado em homenagem ao lendário craque brasileiro, roubou a cena na primeira rodada do Carioca. Seu chute inapelável no ângulo do goleiro rubro-negro Léo Nannetti foi um dos destaques da rodada.

Contudo, a alegria do jogador do Bangu é ofuscada pela apreensão. Ele acompanha de longe a burocracia e a demora no processo de retirada do visto de sua família, que busca desesperadamente um local seguro para viver.

O atacante vive a expectativa de que seus entes queridos possam se juntar a ele no Rio de Janeiro nos próximos meses, contando com o apoio da organização não governamental por trás do projeto Pérolas Negras, clube que detém seus direitos.

A Fuga do Haiti e a Busca por Refúgio

A jornada da família de Garrinsha em busca de segurança começou em 2022, quando deixaram o Haiti. A decisão veio após o assassinato do presidente haitiano Jovenel Moïse, que desencadeou uma escalada na crise política e de segurança no país, transformando-o em palco de uma violenta guerra civil.

“Depois que mataram o presidente lá, invadiram o nosso bairro, mataram muita gente. Meus pais tiveram que sair de lá”, relatou Garrinsha, expressando a esperança de que “se Deus quiser, em breve eles vão estar aqui comigo”.

O plano inicial era trazê-los para o Brasil, onde poderiam solicitar o visto de reunião familiar. No entanto, um erro na emissão do passaporte brasileiro do jogador, com o sobrenome Estimphile grafado com “n” em vez de “m”, adiou esse sonho, criando um impedimento para provar o parentesco.

Diante do impasse, Joseph, Gina e Gabriela aproveitaram a política facilitadora do governo de Joe Biden para acolhimento de refugiados e conseguiram se mudar para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Durham, na Carolina do Norte.

A Virada Política nos Estados Unidos e o Cerco Migratório

O cenário para a família de Garrinsha mudou drasticamente com a vitória de Donald Trump nas eleições de 2024 e seu retorno à presidência dos Estados Unidos. O republicano, defensor de uma política conservadora, tem endurecido o cerco contra os imigrantes no país.

Rubem César Fernandes, um dos diretores-fundadores do Viva Rio e do Pérolas Negras, explicou a gravidade da situação. “É uma situação um pouco dramática. Com o Trump, os Estados Unidos passaram a pressionar os imigrantes não apenas para serem deportados, mas para que sejam deportados de volta para seus países de origem”, afirmou ao ge.

A situação no Haiti é descrita como inviável. “O Haiti se tornou um inferno nesses últimos anos, o haitiano hoje tem dificuldade de ir na esquina comprar verdura, com episódios de minissequestros e violência. Ficou inviável viver lá”, complementou Fernandes, destacando o perigo de um retorno forçado.

Recentemente, o pai de Garrinsha, que trabalhava como vendedor nos Estados Unidos, teve sua permissão de trabalho suspensa, intensificando a pressão sobre a família.

A Luta por um Novo Lar no Brasil

Com as crescentes ameaças do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE), que já resultaram em tragédias, como o assassinato de uma mulher por um agente em Minneapolis, a família de Garrinsha teme até mesmo viagens curtas.

O consulado brasileiro mais próximo de Durham fica em Washington, uma viagem de cerca de seis horas que representa um risco significativo para os haitianos em meio ao clima de repressão à imigração.

Com o auxílio do projeto Haiti Aqui, um braço do Viva Rio focado na integração social e proteção legal de imigrantes, a família de Garrinsha está em contato com o consulado brasileiro desde o ano passado, reunindo a documentação necessária para o pedido de visto.

A expectativa é que o processo seja finalizado nas próximas semanas e que, uma vez formalizado, corra com agilidade. O Itamaraty, procurado para comentar o caso, informou que não se pronuncia sobre solicitações individuais de visto.