Vices na Supercopa e na Recopa Sul-Americana expõem falhas coletivas e dependência de peças chaves no esquema do treinador Filipe Luís
O início da temporada de 2026 trouxe um cenário inesperado para o Flamengo. Após um ano anterior repleto de glórias, o time comandado por Filipe Luís enfrenta instabilidade severa nos primeiros 11 jogos, culminando nas derrotas nas finais da Supercopa do Brasil e da Recopa Sul-Americana. A perda da fluidez tática e o declínio técnico de pilares do elenco acenderam o alerta na Gávea. Analistas ouvidos pelo jornal O Globo mapearam as causas desse declínio abrupto.
A principal mudança observada reside na incapacidade da equipe em manter os mecanismos de controle que a consagraram em 2025. Onde antes havia coordenação para sair da pressão adversária e explorar espaços, hoje existe dificuldade na construção de jogadas. O comentarista Rodrigo Coutinho, do Sportv, identifica uma desconexão coletiva que afeta diretamente o desempenho individual.
“Basicamente, é um time que não está conseguindo fazer nada daquilo que fazia no ano passado. O Flamengo se sentia muito confortável quando o adversário subia para pressionar a saída, e tinha muitos mecanismos para sair disso. (…) Isso não tem se repetido.”
Queda técnica e o fator Jorginho
Além da desorganização tática, o rendimento individual de atletas cruciais despencou. Nomes como Léo Ortiz, o goleiro Rossi e o meia Arrascaeta apresentam performances distantes do auge técnico. O ataque pelos lados, setor que já apresentava deficiências no ano anterior com Samuel Lino e Luiz Araújo, não encontrou solução mesmo com a chegada de Lucas Paquetá, descrito como um “peixe fora d’água” neste início de integração.
A ausência do meio-campista Jorginho foi apontada como um catalisador para o desequilíbrio do time. Marcelo Bechler, da TNT Sports BR, compara a importância do jogador à de ícones mundiais em suas respectivas equipes, destacando como sua falta gera um efeito dominó psicológico e tático.
“O Jorginho dá muito sentido de quando acelerar ou não acelerar, qual passe difícil fazer ou não fazer. (…) A ausência do Jorginho nessas primeiras semanas fez o time perder sentido de jogo, ficar ansioso, perder muitas bolas, começar a perder jogos.”
Contexto físico e pressão externa
O desgaste físico herdado da temporada vitoriosa de 2025 cobra seu preço, afetando a concentração sem a bola e a capacidade de reação. Alexandre Lozetti, do Sportv, ressalta que os adversários estudaram o Flamengo e criaram antídotos para neutralizar seu jogo interior. Apesar do cenário negativo, há um consenso de que o tom das críticas externas pode estar desproporcional à realidade de um início de ano, embora a necessidade de correções seja urgente.
“Agora, é preciso dizer que existe um abismo entre a real necessidade de melhora do Flamengo e o drama roteirizado nas redes sociais e até no estádio. Não faz sentido chamar de ‘time sem vergonha’ os campeões de outro dia.”
Para retomar o caminho das vitórias e evitar que o Campeonato Brasileiro seja comprometido ainda no primeiro semestre, a sugestão dos especialistas envolve uma autocrítica profunda. A recomendação não passa pela demissão da comissão técnica, mas por um “reset” mental, tratando o momento como um recomeço absoluto, desvinculado dos sucessos ou fracassos passados.