O futebol: Um universo de regras e suas peculiaridades
O futebol, paixão mundial que move multidões, é regido por um conjunto de leis que, em sua maioria, buscam garantir a fluidez e a justiça do jogo. Contudo, ao longo de sua rica história, o esporte mais popular do planeta testemunhou a criação e a experimentação de regras que, vistas sob a luz do futebol moderno, soam no mínimo curiosas.
Desde a reunião histórica na Freemason’s Tavern, em Londres, em 1863, onde se buscava a separação definitiva entre o futebol e o rúgbi, até os dias atuais, o esporte evoluiu consideravelmente. As leis de jogo, embora com uma essência mantida, passaram por diversas adaptações, algumas mais drásticas do que outras, refletindo as mudanças sociais, tecnológicas e as próprias dinâmicas do esporte.
As origens e a fundação da Football Association
A fundação da The Football Association (FA) em 26 de outubro de 1863 marcou um ponto crucial na história do futebol. Onze entusiastas se reuniram com o objetivo de codificar as regras do jogo, separando-o de vez do rúgbi, que permitia o uso das mãos. O resultado foi o estabelecimento das primeiras 17 leis que formariam a base do futebol como o conhecemos.
O ex-árbitro brasileiro e atual instrutor de arbitragem da Fifa, Emídio Marques de Mesquita, ressalta que as regras do futebol não são estáticas. Elas mudam com critério, preservando a simplicidade que é um dos pilares do sucesso do esporte. Essa filosofia de “em time que está ganhando não se mexe” tem sido um freio para mudanças radicais, ao contrário de esportes como o vôlei ou o basquete, que se transformaram mais rapidamente.
O International Board: O guardião das leis do jogo
A International Board (IFAB), criada em 1886 – antes mesmo da Fifa (fundada em 1904) –, é a entidade responsável por disciplinar e alterar as regras do futebol. Composta por 20 integrantes, a Board detém oito votos. Os países do Reino Unido (Inglaterra, Escócia, Irlanda do Norte e País de Gales) possuem 16 delegados, mas apenas quatro votos. A Fifa, através de seus quatro representantes, detém os outros quatro votos. Para qualquer modificação ser aprovada, são necessários dois terços dos votos, ou seja, seis dos oito.
Ao contrário do mito de “velhinhos avessos a mudanças”, a Board conta com membros de diversas idades, como o suíço Michel Zen-Ruffinen, ex-secretário-geral da Fifa, que à época tinha apenas 40 anos. A busca por um equilíbrio entre a tradição e a modernização do esporte é constante.
Mudanças motivadas pela queda de gols e outras curiosidades
A queda na média de gols por partida, que atingiu seu ponto mais baixo nas Copas do Mundo em 1990 (apenas 2,2 por jogo), foi um dos principais motores para alterações nas regras. A limitação do tempo que o goleiro pode segurar a bola nas mãos para seis segundos e a proibição do recuo para o goleiro com os pés foram medidas cruciais para aumentar o número de gols e, consequentemente, o dinamismo do jogo.
Ideias mais radicais, como o aumento da altura e largura das traves – de 7,32 para 7,75 metros de largura e de 2,44 para 2,60 metros de altura –, chegaram a ser propostas, mas acabaram arquivadas. As medidas atuais, segundo Emídio Mesquita, derivam do tamanho original do portão da escola de Cambridge, onde o futebol começou a ser praticado, e são consideradas ideais para permitir a defesa por um jogador de estatura média.
O número de jogadores: Um tabu imutável?
Os tradicionais 11 jogadores de cada lado foram estabelecidos pelos ingleses a partir de 1870. As razões para esse número são diversas, variando entre homenagens aos participantes da reunião de 1863 e a limitação de jogadores que podiam ser reunidos em salas de aula no colégio de Cambridge. Uma proposta para reduzir o número para dez jogadores, visando mais espaço para o desenvolvimento do jogo, foi rejeitada.
As evoluções nas substituições
As substituições, como as conhecemos hoje, são uma invenção relativamente recente. Até meados dos anos 50, não existiam. Em caso de lesão, o jogador permanecia em campo “fazendo número”. A primeira experiência oficial ocorreu em 1958, em torneios de jovens, permitindo a troca do goleiro a qualquer momento e de um outro jogador, limitada ao primeiro tempo.
Em 1965, a substituição máxima passou a ser de dois atletas, restrita a casos de contusão. A regulamentação das trocas independentemente do estado físico dos jogadores ocorreu em 1968. O número de três substituições foi aprovado em 1994, inicialmente com a restrição de que um deles fosse o goleiro, norma que foi flexibilizada em 1996.
O uniforme e a segurança dos atletas
As regras sobre o uniforme evoluíram, focando cada vez mais na segurança e na padronização. Em 1989, a exigência de “chuteira” foi substituída pela de um “calçado qualquer”. No ano seguinte, as caneleiras tornaram-se obrigatórias por questão de segurança.
O “calção térmico” passou a ter que ser da mesma cor do calção principal, e camisas sem mangas, como as utilizadas por Camarões na Copa da África de 2002, foram proibidas pela Fifa. Essas mudanças demonstram uma preocupação crescente com a identidade visual e a proteção dos jogadores.
O árbitro e a evolução da arbitragem
O árbitro e os bandeirinhas já eram figuras presentes em alguns jogos desde 1867, mas sua oficialização ocorreu em 1868. Dez anos depois, o árbitro ganhou o apito, e em 1891, passou a ter permissão para apitar de dentro do campo. A utilização experimental de dois juízes tem sido uma das maiores novidades nesse quesito, com as primeiras experiências datando de 1935.
A introdução de elementos de auxílio ao árbitro, como o spray de espuma para demarcar a barreira em cobranças de falta, nem sempre é vista com bons olhos pela Fifa. Da mesma forma, a proposta de uso de câmeras de vídeo para auxiliar na marcação de lances duvidosos, como pênaltis e impedimentos, tem enfrentado resistência. Embora câmeras dentro das redes sejam permitidas para melhorar a transmissão de TV, elas não podem ser usadas pelo juiz para validar gols.
O tempo de jogo: 90 minutos e a busca por dinamicidade
Desde 1877, o futebol é jogado em 90 minutos, divididos em dois tempos. Antes disso, a duração das partidas variava consideravelmente. No Brasil, essa regra demorou a ser totalmente absorvida, com jogos tendo dois tempos de 40 minutos até os anos 30.
Os acréscimos também demoraram a entrar nas regras. Somente em 1987 os árbitros receberam orientação formal para compensar paralisações. Tentativas de dividir o jogo em quatro tempos de 25 minutos, como no basquete, ou a introdução de tempos técnicos solicitados pelos treinadores, foram cogitadas, mas não vingaram, muitas vezes por dificultarem a veiculação de comerciais ou por serem usadas taticamente para esfriar o jogo adversário.
O impedimento: Uma regra em constante debate
Uma das regras mais polêmicas, o impedimento, existe desde 1867. Inicialmente, a exigência era de três adversários entre o jogador e a linha de fundo no momento do passe; em 1925, esse número foi reduzido para dois.
Em 1990, ocorreu a última alteração significativa, permitindo que um jogador na mesma linha do penúltimo adversário estivesse em condição de jogo. Testes com uma zona de impedimento, traçada a 16,50 metros do gol, eliminaram o jogo nas áreas, demonstrando a complexidade em encontrar a regra perfeita para essa situação.
Distância da barreira e a disciplina no jogo
A distância mínima de 10 jardas (9,15 m) para o posicionamento da barreira em cobranças de falta é prevista desde 1913. Mesmo assim, árbitros frequentemente enfrentam dificuldades para conter o avanço da barreira, levando a testes na Inglaterra para repetição progressiva das cobranças.
No campo da disciplina, a Fifa tem implementado mudanças importantes. Agressões explícitas, como cuspir em um adversário, só passaram a ser consideradas conduta violenta a partir de 1980. Impedir um atacante com jogo brusco (1990) ou tocar a bola com a mão para evitar um gol claro (1991) passaram a ser casos de expulsão.
Penalidades para goleiros e a criação do pênalti
O goleiro, historicamente, sofreu diversas alterações em suas prerrogativas. Até 1912, podia pegar a bola com as mãos em qualquer parte do campo. Em 1915, os três passos permitidos com a bola nas mãos foram estendidos para quatro. A regra dos seis segundos para reposição da bola foi introduzida em 1998, com a ameaça de falta em dois toques em caso de sobrepasso.
A proibição de pegar com as mãos a bola recuada com os pés por companheiros, implementada em 1992, aumentou significativamente o tempo de bola em jogo. A partir de 2000, goleiros passaram a poder dar quantos passos quisessem, desde que dentro do limite de seis segundos.
O pênalti, como o conhecemos, só surgiu em 1891, sugerido pelo irlandês William McCrum, após um lance em que o zagueiro Hendry, do Notts County, impediu um gol com a mão. As áreas e a marca do pênalti foram criadas em 1902, e a meia-lua, em 1937, para garantir a distância regulamentar de 9,15m para os demais jogadores.
Arremesso lateral e a busca pela eficiência
A ideia de cobrar o arremesso lateral com os pés foi testada e reprovada em diferentes ocasiões, como no Mundial Sub-17 de 1993. A prática eliminava o desenvolvimento do jogo no meio-de-campo, levando à manutenção da cobrança com as mãos.
Curiosidades modernas e o futuro do futebol
Apesar das mudanças graduais, o International Board continua a deliberar sobre questões pontuais. A liberação para tirar a camisa na comemoração de um gol é um exemplo. A evolução do futebol é um processo contínuo, mas que, historicamente, tem acontecido de forma bastante lenta, preservando a essência do jogo.
Curiosamente, um jogador pode celebrar um gol e receber um cartão amarelo por tirar a camisa, e ainda assim manter o cartão, mesmo que o gol seja anulado. A celebração não precisa ser completa; cobrir a cabeça com a camisa já pode ser motivo de advertência. Um árbitro pode, inclusive, exibir cartões durante o intervalo ou após o término da partida, se a conduta assim justificar, desde que ainda esteja no terreno de jogo.
Um pontapé de penálti de calcanhar, de costas para o adversário, é legal se a bola se mover para frente. Em dias de nevoeiro cerrado, a prática comum dos árbitros para decidir se o jogo pode começar é se posicionarem em uma baliza para ver se a outra é visível. O sorteio inicial, obrigatoriamente, deve ser feito com moeda ao ar, na presença dos dois capitães.
Um jogador pode lançar a bola lateralmente para a cabeça de um colega, que pode atrasá-la para o goleiro, que a pode agarrar com as mãos. Nenhum adversário pode estar a menos de dois metros do ponto de cobrança de um lateral, e o executante pode usar o corpo de um adversário para continuar jogando, desde que de forma considerada desportiva pelo árbitro.
Uma partida pode começar com apenas sete jogadores em campo, desde que um deles seja o goleiro. A “meia-lua” junto às áreas serve para garantir que todos os jogadores, exceto goleiro e cobrador, fiquem a 9,15m da marca do pênalti. O círculo central tem o mesmo propósito para reinícios de jogo. As bandeirolas de canto têm altura mínima definida (1,5m), mas não há limite máximo, apenas não podem ser pontiagudas.
Estas são apenas algumas das muitas peculiaridades que enriquecem o universo do futebol, mostrando que, por trás da simplicidade aparente, existe um mundo de regras, interpretações e curiosidades que tornam o esporte ainda mais fascinante.
O futebol continua sendo um esporte em constante, embora lenta, evolução, com regras que, ao longo do tempo, refletiram os anseios por justiça, segurança e espetáculo, moldando a paixão que transcende fronteiras.