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quando o futebol se torna inspiração para esculturas e instalações de arte contemporânea

O universo do futebol transcende as quatro linhas do campo, inspirando criadores em diversas formas de expressão artística. A paixão nacional, suas histórias, ícones e mesmo as controvérsias se materializam em esculturas, instalações e outras intervenções que desafiam nossa percepção sobre o esporte mais popular do planeta. Como a arte contemporânea tem abordado a temática futebolística, transformando-a em objetos de reflexão estética e social?

As obras que exploram o futebol vão muito além de meras representações de jogadas ou jogadores. Artistas utilizam o esporte como um portal para discutir questões sociais, políticas, identidades culturais e até mesmo a condição humana. A complexidade do futebol, com seus heróis, vilões, glórias e dramas, oferece um terreno fértil para a exploração artística.

Futebol como espelho da sociedade

A relação entre futebol e sociedade é intrínseca e, por isso, muitos artistas veem no esporte um reflexo das dinâmicas sociais. Obras podem expor as desigualdades, os mitos da meritocracia, as tensões raciais e a forma como o futebol molda e é moldado pela cultura de um país.

Um exemplo notável é a instalação “O jogo!” (2022), de Augusto Leal. A obra é composta por 24 traves de gol, cada uma com um tom de pele representando uma nuance da sociedade brasileira. As traves de tons mais claros, dispostas centralmente, contrastam com as de tons mais retintos, posicionadas mais ao longe, aludindo à forma como o futebol, dentro de um país marcado pelo mito da meritocracia, pode perpetuar a violência contra corpos negros.

A crítica social também se manifesta em obras que abordam a massificação e a mobilização de multidões proporcionadas pelo futebol. Rubens Gerchman, em sua obra “Jogo de futebol” (1997), explorou como o esporte eleva o homem comum à condição de herói, utilizando figuras que, segundo Mário Pedrosa, tornam-se “modelos-fetiches da sociedade de consumo”.

A representação de ícones e momentos históricos

A história do futebol é repleta de personagens e eventos que transcendem o esporte e se tornam parte da memória coletiva. Artistas frequentemente se debruçam sobre essas figuras e momentos para gerar novas interpretações.

Andy Warhol, mestre da Pop Art, não deixou de fora o Rei do Futebol de sua vasta galeria de ícones. Em 1975, ele produziu um retrato serigráfico de Pelé, parte da série “Atletas”. A obra foi tão impactante que o próprio jogador declarou que Warhol “deu continuidade à minha vida e à minha mensagem fora do campo de futebol”, evidenciando a força da arte em perpetuar legados.

Outro momento histórico reinterpretado é o da ditadura militar brasileira. Jaime Lauriano, com sua videoarte “Morte súbita” (2014), contrapõe a euforia das vitórias da seleção na Copa de 1970 ao contexto sombrio do regime. Uma voz em off recita nomes de dissidentes desaparecidos ou assassinados, conectando a celebração nacional a um período de repressão.

Desmistificando o futebol e explorando sua fisicalidade

A arte também se dedica a desconstruir a imagem idealizada do futebol, explorando sua dimensão física, seus bastidores e até mesmo as dificuldades inerentes à sua prática.

A artista austríaca Maria Lassnig, conhecida por sua exploração da fisicalidade e distorção do corpo, retratou três jogadores em “Konkurrenz III” (2000). Com 81 anos na época da criação, ela utilizou sua própria imagem como base para os atletas, empregando pinceladas fluidas e cores vibrantes para um tratamento expressivo.

A dificuldade e a imprevisibilidade do jogo foram o foco de Priscilla Monge em sua obra interativa “Sem título” (2006). A artista costarriquenha criou um campo de futebol ondulado, com 150m², que torna a corrida e o passe da bola desafiadores. Instalada em espaços públicos e na Bienal de Liverpool, a obra convida os participantes a adaptarem suas táticas e criarem novas regras.

O futebol feminino em pauta

A luta por igualdade de gênero também encontra eco nas artes visuais, com artistas que buscam dar visibilidade à trajetória e aos desafios do futebol feminino.

Ángel Zárraga, em 1928, foi pioneiro ao retratar o futebol feminino na pintura “Três futebolistas”. A obra mostrava Jeanette Ivanoff, Henriette Comte e Théresè Renault, em uma época em que o esporte era dominado por homens e a participação feminina causava grande impacto. Esta iniciativa abriu portas para que outras artistas abordassem o tema.

Mais recentemente, Forough Alaei, com sua série fotográfica “Crying for Freedom” (2018), documentou a Copa do Mundo de 2018 sob a perspectiva das mulheres iranianas, que por anos foram impedidas de assistir a jogos em estádios. A série registra a ousadia de mulheres que se disfarçaram para acompanhar as partidas, mesmo correndo o risco de serem presas, e a liberação de transmissões em locais públicos como um pequeno avanço.

A fotógrafa anglo-belga Jessica Hilltout, em sua série “Amen: Grassroots Soccer” (2010), viajou por dez países do sul e oeste da África, registrando como jovens utilizam os mais variados materiais para confeccionar suas próprias bolas de futebol. A obra destaca a paixão universal pelo esporte, independentemente das condições materiais.

Intervenções e instalações que questionam o espaço

A arte contemporânea também se apropria do espaço público e de elementos simbólicos do futebol para criar instalações que provocam o espectador.

Nelson Leirner, em “Maracanã” (2003), recriou o icônico estádio com uma partida entre Incríveis Hulks e Power Rangers. Nas arquibancadas, uma colagem de ícones da cultura pop, figuras religiosas e históricas como Budas, Jesus e legiões de cavalaria romana. Segundo Leiner, a obra é uma reflexão sobre os poderes concorrentes do mundo: religião e cultura de consumo, que, em sua visão, não priorizam os interesses populares.

A instalação “O jogo!” de Augusto Leal, mencionada anteriormente, com suas traves de diferentes tons de pele, também se insere nessa categoria de intervenções que utilizam elementos futebolísticos para gerar diálogo social.

O futebol como elemento de identidade nacional

O estilo “futebol-arte” ganhou destaque no Brasil nos anos 1930, associado à construção de uma identidade nacional que valorizava a miscigenação. Como apontam Filipe Fernandes Ribeiro Mostaro, Ronaldo George Helal e Fausto Amaro em seu artigo, o futebol tornou-se um pilar na definição do que significava ser brasileiro.

Essa associação entre futebol e identidade nacional remonta a debates ideológicos da época, onde o esporte era visto como um elemento unificador e um reflexo da diversidade cultural do país. A performance brasileira em Copas do Mundo, especialmente a de 1938, reforçou essa conexão, solidificando a imagem do Brasil como “o país do futebol”.

Perspectivas futuras e a expansão temática

A lista de obras que retratam o futebol é vasta e diversificada, mas é notável a predominância de artistas homens e de origem internacional em coleções históricas. Contudo, há um movimento crescente para incluir e valorizar a produção de mulheres e artistas de diferentes origens, ampliando a narrativa sobre o esporte e sua relação com a arte.

O futebol, como fenômeno global e paixão intrínseca a muitas culturas, continuará a ser uma fonte inesgotável de inspiração para artistas. As esculturas, instalações e outras formas de arte contemporânea que emergem a partir do esporte prometem seguir desafiando e enriquecendo nosso entendimento sobre futebol, arte e a sociedade em que vivemos.